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Archive for the ‘Literatura Brasileira’ Category

 

O menino ia no mato

E a onça comeu ele.

Depois o caminhão passou por dentro do corpo do menino

E ele foi contar para a mãe.

A mãe disse: Mas se a onça comeu você, como é que

o caminhão passou por dentro do seu corpo?

É que o caminhão só passou renteando meu corpo

E eu desviei depressa.

Olha, mãe, eu só queria inventar uma poesia.

Eu não preciso de fazer razão.

 

(em Tratado geral das grandezas do ínfimo)

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“Outra coisa que também me parece metafísica é isto: Dá-se movimento a uma bola, por exemplo; rola esta, encontra outra bola, transmite-lhe o impulso, e eis a segunda bola a rolar como a primeira rolou.Suponhamos que a primeira bola se chama… Marcela, – é uma simples suposição; a segunda, Brás Cubas; – a terceira, Virgília. Temos que Marcela, recebendo um piparote do passado rolou até tocar em Brás Cubas, – o qual, cedendo à força impulsiva, entrou a rolar também até esbarrar em Virgília, que não tinha nada com a primeira bola; e eis aí como, pela simples transmissão de uma força, se tocam os extremos sociais, e se estabelece uma coisa que poderemos chamar – solidariedade do aborrecimento humano. Como é que este capítulo escapou a Aristóteles?”

 

( Memórias Póstumas de Brás Cubas – Capítulo XLII  Que Escapou a Aristóteles)

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O século XXI me dará razão, por abandonar na linguagem & na ação a civilização cristã oriental & ocidental com sua tecnologia de extermínio & ferro-velho, seus computadores de controle, sua moral, seus poetas babosos, seu câncer que-ninguém-descobre-a-causa, seus foguetes nucleares caralhudos, sua explosão demográfica, seus legumes envenenados, seu sindicato policial do crime, seus ministros gângsteres, seus gângsteres ministros, seus partidos de esquerda fascistas, suas mulheres navios-escola, suas fardas vitoriosas, seus cassetetes eletrônicos, sua gripe espanhola, sua ordem unida, sua epidemia suicida, seus literatos sedentários, seus leões-de-chácara da cultura, seus pró-Cuba, anti-cuba, seus capachos do PC, seus bidês de direita, seus cérebros de água choca, suas mumunhas sempiternas, suas xícaras de chá, seus manuais de estética, sua aldeia global, seu rebanho-que-saca, suas gaiolas, seus jardinzinhos com vidro fume, seus sonhos paralíticos de televisão, suas cocotas, seus rios cheios de latas de sardinha, suas preces, suas panquecas recheadas de desgosto, suas últimas esperanças, suas tripas, seu luar de agosto, seus chatos, suas cidades embalsamadas, sua tristeza, seus cretinos sorridentes, sua lepra, sua jaula, sua estricnina, seus mares de lama, seus mananciais de desespero.


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1

Dou com um perneta na rua e, ai de mim, pronto começo a manquitolar.

2

Uma bandeja inteira de pastéis. Como escolher um deles? São tantos.— Fácil: deixe que ele te escolha.

3

A tipinha de tênis rosa para o avô que descola um dinheirinho:— Pô, você me salvou a vida, cara!

4

O inimigo de futebol:— O meu amor pela Fifi é maior que o amor pelo Brasil.

A doce pequinesa que sofre dos nervos com a guerra da buzina, corneta, bombinha, foguete.

5

— Sabe o que o João deu para o nenê, filho dele? Meia dúzia de fraldas e um pião amarelo.

6

— Casei com uma puta do Passeio Público. Tinha tanto piolho que, uma noite dormia de porre, botei um pó no cabelo dela. Dia seguinte, lavou a cabeça e ficou meia cega.

7

De repente a mosca salta e pousa na toalha branca. Você a espanta, sem que voe — uma semente negra de mamão.

8

Parentes e convidados rompem no parabéns pra você. De pé na cadeira, a aniversariante ergue os bracinhos:— Pára. Pára. Pára.

Na mesa um feixe luminoso estraga o efeito das cinco velinhas.

— Mãe, apaga o sol.

9

A chuva engorda o barro e dá de beber aos mortos.

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Conto “O Plebiscito” de Artur Azevedo,

interpretador por Antônio Abujamra.

*

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As três moças de Encruzilhada Era uma vez três moças que moravam na florescente cidade de Encruzilhada. E, como eram três moças muito sérias, faltava-lhes o senso de humor e tomavam ao pé da letra o nome de sua cidade natal. E nunca sabiam onde ir, o que fazer, o que responder…

Para acabar com essa dúvida atroz, depois de infindáveis hesitações, resolveram o seguinte: a primeira sempre diria “sim”, a segunda que não e a terceira responderia com ar sonhador:

— Talvez…

Ora, um dia a Morte apareceu à primeira, e a moça disse que sim.

 A Morte a levou.

No outro dia a Morte apareceu à segunda e esta disse que não.

— Como ousas contrariar-me? — a Morte retrucou. — Eu sou a única Potestade do Céu e da Terra a quem ninguém pode dizer “não”.

E levou a moça. Enfim, no terceiro dia, a Morte apresentou-se à última das três — e a moça ficou olhando, olhando a cara da Morte e finalmente suspirou:

— Talvez…

E a Morte retirou-se, danada da vida.

 

(Da Preguiça como Método de Trabalho – Mario Quintana)

 

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Conto “Passagem” de Leo Trombka, interpretado por Paulo César Peréio.

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