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Enterro

Passava a mão delicadamente pelo velho vestido. Seus olhos estavam molhados, o passado jorrava, como a água da torneira. Ela se levantou, olhou através da janela as crianças, ainda estavam lá. O tempo estava se abrindo, o sol brilhava com alguma timidez, mas não para ela. Voltou ao canto do quarto, o aparelho de som ligou, primeiro não compreendia qual era a música, o volume começou a aumentar gradativamente e o que antes era quase um ruído tornou-se compreensível, era uma velha marchinha de carnaval, cujo nome não vinha à cabeça.

Transbordava-se em passado. Estava imóvel já fazia algum tempo. Despiu-se, olhou seu corpo refletido no espelho. Começou acariciá-lo, quando passava as mãos pelos seios percebeu entre eles um furo. Penetrou-o com seu dedo indicador, que indicava qual a profundidade do buraco. A música mudou, agora ressoava uma guitarra estridente. Uma chuva forte começou. Agora já havia colocado a mão inteira dentro de si. Ouviu um grito cortante. Ficou estática.

A sirene soou, no chão do quarto estava o corpo já morto. Enfim, mais um enterro para irmos. 

 

(lyard)

 

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uma pedrinha rolou do morro

e já foi motivo para os devaneios do velho

que irritado já foi gritando:

– !!!!!!

 

não, não há motivos para repetir o que ele disse,

mas a pedrinha ainda rola todos os dias

e o velho continua irritado

(e eu bebo mais uma cerveja ,

esperando a guerra passar

ad infinitum)

 

(lyard)

José é comprometido. Acorda cedo, reza e cumpri as regras matinais com a mesma disposição dos carros na rua. Zézinho tem 13 anos e trabalha todos os dias, todos os dias mesmo. Na escola só foi algumas vezes e lembra que até gostava do lugar e das pessoas, mas era peça sobrando no motor. Bem cedinho começa a trabalhar, com muito dever, trabalha em semáforos, esquinas, portas de comércios, praças e em outros não-lugares escolhidos a esmo. Depois de tempos trabalhando o menino juntou grana o suficiente para comprar uma TV, o objeto era um presente para Dona Crica, sua mãe, avó, madrasta, pai, tia, irmã, avô, professora, patroa… O objeto encantou muito a sofrida senhorinha e logo ela descobriu como usar aquela velha TV. Sim, a TV funcionaria muito bem como uma quase-escora para a querida penteadeira de Dona Crica. Zé ficou muito orgulhoso de si e feliz pela felicidade que havia promovido. Então sonhou acordado, “como seremos felizes quando a energia elétrica chegar!”

(lyard libório)

Todos em casa, cada um ocupado

com o seu ocupar

 

o pai na sala

a mãe na cozinha

a filha no quarto

o filho fervendo

 

na sala a TV é a dona da voz

única e respeitada

o filho espreita da

porta o homem jogado no sofá

(ah, esse menino!)

 

o menino interrompe o sonho-acordado da sala

(maldito! grita o pensamento do papai)

num movimento ágil – quase igual ao do filme na TV –

o pai acerta um imponente tapa no filho

 

gritos

gritos

gritos

 

na cozinha a mãe não está mais

agora na sala ela grita (com voz chorosa de mãe)

para que parem com a briga

 

no quarto a filha pensa resmungando

“tudo novamente, que exploda!”

 

 

(pai e filho discutem e curtem o loop de cada dia,

a mãe pela milésima vez molha os olhos,

da filha só os dedos estão deliciosamente molhados)

 

na TV a vida continua, incansável.

 

(lyard libório)

 

o meu amor e eu
nascemos um para o outro

agora só falta quem nos apresente

seria eu um simples narrador de acontecimentos? talvez, não mais que o registrador de coisas insignificantes(?). acho que não, não sou tudo isso. tenho muitas vontades e pouquíssimas realizações. minto, não com o glamour de Pessoa, só minto para fingir viver e mesmo assim não sou suficientemente bom nesse fazer.

as palavras me fogem facilmente, creio que não as conheça como deveria. tenho dificuldade em usá-las, meus sentimentos as desconhecem. faço tentativas infantis e o resultado é quase sempre o mesmo.

não. o amor nunca resolveu meus problemas. acredito realmente que já fui amado, o problema é que eu nunca soube do amor mais do que me ensinaram. algumas pessoas devem pensar, ou já pensaram, que as amei verdadeiramente. perdão, mas isso não aconteceu. o amor na minha vida é como deus, algo que eu realmente gostaria de conhecer. receio porém que não acontecerá.

o que posso fazer? hoje resolvi falar de mim. talvez no fundo, lá no fundo mesmo, eu só espero por uma redenção e um cantinho no paraíso.

 

lyard

Sinfonia ligeira
Não chega ao fim
Queira ou não queira
Eu sou é assim

Te dei meu corpo
Te dei minha pele
Mesmo depois de morto
Esta força me impele

Força dos grandes destinos
Que estão muito além
Dos hinos e dos sinos
E do aum e/ou do om e do amém

Mas te amo, te amo, te amo
Como nunca se amou na Terra
Nem no Brasil, no Vietnã ou no oceano
Nem na China nem na Inglaterra

Monstro dourado
De amor e dengue
Sou eternamente gamado
Nestes quadris que dançam merengue

Fico feliz
Quando tu chegas
És a matriz
Das minhas horas mais negras

De onde tu vens?
De onde? De onde?
Será que tu é quem tens
O ouro do conde?
Falo bobagem
Começo a ser fragmento
A grande chantagem
É a morte a todo momento