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Posts Tagged ‘Literatura’

O século XXI me dará razão, por abandonar na linguagem & na ação a civilização cristã oriental & ocidental com sua tecnologia de extermínio & ferro-velho, seus computadores de controle, sua moral, seus poetas babosos, seu câncer que-ninguém-descobre-a-causa, seus foguetes nucleares caralhudos, sua explosão demográfica, seus legumes envenenados, seu sindicato policial do crime, seus ministros gângsteres, seus gângsteres ministros, seus partidos de esquerda fascistas, suas mulheres navios-escola, suas fardas vitoriosas, seus cassetetes eletrônicos, sua gripe espanhola, sua ordem unida, sua epidemia suicida, seus literatos sedentários, seus leões-de-chácara da cultura, seus pró-Cuba, anti-cuba, seus capachos do PC, seus bidês de direita, seus cérebros de água choca, suas mumunhas sempiternas, suas xícaras de chá, seus manuais de estética, sua aldeia global, seu rebanho-que-saca, suas gaiolas, seus jardinzinhos com vidro fume, seus sonhos paralíticos de televisão, suas cocotas, seus rios cheios de latas de sardinha, suas preces, suas panquecas recheadas de desgosto, suas últimas esperanças, suas tripas, seu luar de agosto, seus chatos, suas cidades embalsamadas, sua tristeza, seus cretinos sorridentes, sua lepra, sua jaula, sua estricnina, seus mares de lama, seus mananciais de desespero.


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Desci as escadas afoito. Não me lembrava bem de como havia ficado tantas horas naquele apartamento, lembrava apenas de ter sido convidado por Ralf Furkäns, um renomado enólogo de origem alemã, para experimentar um novo tipo de vinho, que segundo ele fora descoberto numa quinta da região. Cheguei no horário combinado, o táxi me deixou a alguns metros do moderno e imponente edifício Santo Antão. Havia uma inscrição na porta indicando para entrar em silêncio, empurrei a suntuosa porta de vidro, o ambiente era muito escuro. Pude ouvir quando Funrkäns disse para subir.
Procurava um interruptor e acabei esbarrando numa frágil e empoeirada mesinha, que provavelmente havia servido para um porteiro. De repente uma fraca luz iluminou o ambiente, pude ver então que o interior do prédio contrastava imperiosamente com o seu exterior. O lugar parecia sujo, as paredes cobertas por uma espessa camada de bolor, ao caminhar percebia as irregularidades do chão, senti calor. Novamente Furkäns gritou para que eu subisse, seu tom era autoritário e por um instante me senti constrangido por estar ali.


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“Contudo, todos nós precisamos de fuga. As horas são longas e têm de ser preenchidas de algum modo até nossa morte. E simplesmente não há muita glória e sensação para ajudar. Tudo logo se torna chato e mortal. Acordamos pela manhã, jogamos o pé para fora da cama, colocamo-los no chão e pensamos ‘ah, merda, e agora?’”

(Charles Bukowski – “Hollywood”)

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É um vão de verdura onde um riacho canta
A espalhar pelas ervas farrapos de prata
Como se delirasse, e o sol da montanha
Num espumar de raios seu clarão desata.

Jovem soldado, boca aberta, a testa nua,
Banhando a nuca em frescas águas azuis,
Dorme estendido e ali sobre a relva flutua,
Frágil, no leito verde onde chove luz.

Com os pés entre os lírios, sorri mansamente
Como sorri no sono um menino doente.
Embala-o, natureza, aquece-o, ele tem frio.

E já não sente o odor das flores, o macio
Da relva. Adormecido, a mão sobre o peito,
Tem dois furos vermelhos do lado direito.

(Tradução:  Ferreira Gullar)

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Por que persistes, incessante espelho?
Por que repetes, misterioso irmão,
O menor movimento de minha mão?
Por que na sombra o súbito reflexo?

És o outro eu sobre o qual fala o grego
E desde sempre espreitas. Na brunidura
Da água incerta ou do cristal que dura
Me buscas e é inútil estar cego.

O fato de não te ver e saber-te
Te agrega horror, coisa de magia que ousas
Multiplicar a cifra dessas coisas

Que somos e que abarcam nossa sorte.
Quando eu estiver morto, copiarás outro
E depois outro, e outro, e outro, e outro…

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nos isolaremos

como se isola

o som

que sai do

sax

de Charlie Parker

como atingem

o alto-mar

alguns navios

como se perdem

datas cabelos

amigos como se consomem

laranjas doçuras

jornais

como se destroem

vidas

edifícios

motoristas


De Movediço (2001)

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EX/PLICAÇÃO

não há um
sentido único
num
poema

quando alguém
começa a ex-
plicá-lo e
chega ao fim
en-
tão só fica o
ex
do ponto de
partida

beco

(tente outra
vez)

sem saída

+ poemas

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